Enap completa 40 anos com a missão de transformar o futuro do serviço público
Escola Nacional de Administração Pública comemora quatro décadas de existência com relevância e alinhada às mudanças do Estado brasileiro
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Há instituições que atravessam décadas mantendo praticamente a mesma função. E outras, que precisam se atualizar constantemente junto com o país para continuar fazendo sentido e tendo relevância. A história da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) pertence ao segundo grupo.
Criada em 1986, a Escola nasceu em um momento de transformação política e institucional do Brasil. A proposta era formar servidores para uma administração pública que também precisava se reconstruir.
Quarenta anos depois, a instituição já não é apenas aquela Escola criada para formar uma nova geração de servidoras e servidores. Ao longo desse período, a Enap incorporou pesquisa, pós-graduação, inovação, produção de conhecimento e novas formas de formação.
A Enap passou a trabalhar também com estados e municípios e a aproximar a administração pública da academia. Mas chegar até aqui não foi um processo automático.
Antes de ser referência, a Enap precisou existir
A ideia de uma Escola de Governo já vinha sendo discutida antes da criação da Enap. O modelo francês da École Nationale d’Administration, a ENA, serviu como uma das referências para a concepção brasileira. Mas importar um modelo não significava simplesmente reproduzi-lo.
A professora Eda Castro Lucas de Souza acompanhou esse período de perto. Uma das pessoas que participaram da construção inicial da Escola, ela conta que a Enap ainda precisava conquistar seu espaço dentro da própria administração pública. “Nessa época, a Enap estava nascendo. Ela ainda não estava totalmente aceita, instituída. Ela era um bebê fraco”, lembra.
A comparação com a instituição francesa mostrava justamente o tamanho do desafio. Enquanto a ENA já estava profundamente incorporada ao Estado francês, a Enap ainda precisava provar sua importância.
Havia também resistência. Formar servidores de maneira profissionalizada significava mexer com uma cultura administrativa acostumada a outros critérios para ocupar cargos públicos. A criação da Escola, portanto, representava mais do que a abertura de uma instituição de ensino. Era uma tentativa de mudar a própria relação do servidor com o Estado.
Eda lembra que a primeira turma enfrentou esse ambiente de disputa e desconfiança. Para ela, aquela geração ajudou a dar à Enap uma identidade própria. “A nossa, que nasceu para ser um modelo da França, foi adquirindo o seu modelo próprio. E, hoje, ela [Enap] tem toda uma característica própria, toda uma cara do Estado brasileiro.”
A primeira grande experiência
A primeira seleção para a carreira de gestores públicos ajuda a dimensionar a ambição daquele projeto. Foram cerca de 68 mil candidatos para 120 vagas. Os selecionados passaram por um curso de um ano e meio, em período integral, com aulas, trabalhos e avaliações.
O professor e economista José Luiz Pagnussat participou desse processo desde o começo e acompanhou de perto a formação daquela primeira turma. Ele lembra que a rotina era intensa e que os alunos eram constantemente colocados diante da necessidade de apresentar ideias e propostas. “O concurso foi bastante puxado: 68 mil candidatos para selecionar 120 pessoas. E um curso de longa duração. Dedicação intensa, o dia todo, com aula, um ano e meio.”
Não era apenas uma formação técnica. A intenção era preparar pessoas para pensar a administração pública a partir dos problemas da sociedade. Os alunos precisavam apresentar propostas, defender trabalhos diante de bancas e discutir como suas ideias poderiam produzir resultados concretos.
O representante daquela primeira turma, Francisco Gaetani, mais tarde veio também a ser o presidente da Enap, que o formou. Professor de Gaetani à época, Pagnussat recorda que desde o início havia uma preocupação que atravessaria as décadas seguintes: fazer com que o servidor olhasse para além da própria carreira.
“Sempre a gente procurou tomar um certo cuidado no processo de formação dos profissionais, para que eles sempre olhassem para a sociedade e não pro seu interesse”, lembra Pagnussat.
A lógica era colocar o resultado da política pública e o valor entregue à sociedade acima do interesse individual. Para Pagnussat, esse princípio ajudou a formar gerações de servidores. E a própria permanência dele na instituição acabou se tornando parte dessa história. São praticamente quatro décadas dentro da Enap, onde atua até hoje.
Uma Escola que precisou conquistar seu espaço
Os primeiros anos foram, portanto, de afirmação. A Enap precisava construir uma identidade própria, formar pessoas e mostrar que uma Escola de Governo poderia contribuir para transformar a administração pública.
Eda Castro Lucas de Souza resume esse processo de uma maneira que talvez explique melhor do que qualquer definição o que aconteceu ao longo dessas quatro décadas. Para ela, a Escola começou inspirada em uma experiência estrangeira, mas deixou de ser uma simples reprodução daquele modelo.
Em determinado momento, a criação passou a superar o projeto original através de uma transformação importante: a Enap passou a ser também resultado das experiências acumuladas pelos próprios servidores que formou.
Uma Escola construída por pessoas
A história institucional também é feita por quem passou pelos seus corredores. Isabel Pinheiro começou na Enap como recepcionista. Permaneceu na instituição durante 38 anos e se aposentou depois de atravessar diferentes momentos da Escola.
A trajetória dela mostra que a construção da Enap não aconteceu apenas nas salas de aula ou nos cargos de direção. Houve também uma dimensão cotidiana, feita por servidores que permaneceram durante décadas acompanhando as mudanças da instituição.
Ao lembrar desse período, Isabel fala de uma sensação de realização por ter contribuído para o serviço público e pelas relações que construiu ao longo da carreira. São histórias individuais que, somadas, ajudam a explicar a permanência da instituição.
De escola de formação a uma Escola de Estado
A transformação da Enap também aparece na trajetória de antigos alunos que voltaram à instituição em outras funções.
Iara Alves conheceu a Escola como estudante, há 19 anos. Entrou para a carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) e passou pela formação inicial em 2007.
Foram meses de dedicação integral: aulas de segunda a sexta-feira e provas aos sábados. Anos depois, ela retornou à Enap e hoje á a diretora de Educação Executiva. A experiência como aluna marcou a trajetória profissional. “Eu dou muito crédito à Escola pela servidora que eu me tornei", declara Iara.
Mas a formação oferecida pela Enap também mudou. O que antes estava concentrado em determinadas carreiras passou a alcançar diferentes perfis de servidoras e servidores de diferentes esferas do serviço público.
A discussão sobre administração pública deixou de estar restrita ao funcionamento interno dos órgãos e passou a incorporar temas como inovação, políticas públicas, dados, transformação digital, avaliação e articulação entre União, estados e municípios.
Quando formar servidores deixou de ser o único objetivo
A expansão das atividades modificou também a natureza da instituição. A formação continuou sendo parte central da Enap, mas passou a conviver com pesquisa, produção de conhecimento, pós-graduação e inovação.
Iara Alves resume essa diferença ao explicar que o objetivo não é simplesmente ensinar procedimentos. “A gente não treina as pessoas aqui para usar o SEI, a gente não treina as pessoas para fazer um ofício. É uma formação muito mais profunda, muito mais ampla.”
A intenção passou a ser modificar a maneira como o servidor compreende seu próprio trabalho e sua relação com a sociedade. “Uma nova mentalidade de um servidor que, no futuro, consiga realmente mudar não só a forma como a gente entrega o serviço público, mas até mesmo como o cidadão vai enxergar o serviço público”, completa.
Uma escola que aprende com a realidade
Essa mudança também aparece na área da produção de pesquisa científica e conhecimento. Alexandre Gomide, atual diretor de Altos Estudos, voltou à Enap depois de já ter trabalhado na instituição anos antes. Hoje, acompanha uma estrutura que aproxima pesquisa acadêmica e problemas concretos do governo.
A lógica é diferente daquela em que a academia produz conhecimento de um lado e a administração pública tenta aplicá-lo do outro. Na Enap, a proposta se tornou fazer essas duas dimensões se interconectarem.
Gomide explica que o servidor pode chegar à Escola trazendo um problema concreto, receber conhecimento teórico e metodológico e voltar ao próprio problema tentando encontrar uma nova interpretação ou uma solução.
“A pessoa vem com um problema concreto, ela recebe um conhecimento, uma lente teórica, uma metodologia, e usa o problema dela, concreto, para gerar uma nova interpretação, uma nova solução prática.”
É uma mudança importante na própria ideia de formação. O conhecimento não termina na sala de aula. Ele volta para o lugar onde o problema existe. E, ao mesmo tempo, os problemas da administração pública passam a retroalimentar a produção de conhecimento.
Adaptabilidade como parte da história
Para o diretor de Altos Estudos, essa capacidade de se transformar é justamente uma das características que explicam a trajetória da Enap ao longo das últimas quatro décadas. “Eu acho que essa adaptabilidade é o grande diferencial da Enap. Ela não é uma instituição rígida de maneira alguma”, ressalta Gomide.
A Escola manteve a formação de servidores como parte do seu DNA, mas incorporou novas atividades e capacidades. A rede construída ao longo dos anos também passou a ser parte desse processo: quem estudou na Enap pode voltar como professor, pesquisador, parceiro ou aluno de uma pós-graduação.
A Enap, assim, deixou de ser apenas um lugar por onde servidores passam ao entrarem para o serviço público e passou a funcionar também como uma rede que conecta pessoas à produção de conhecimento e à transformação da administração pública.
O Brasil inteiro dentro da sala de aula
Outra transformação aconteceu na relação da Enap com os entes federativos. A instituição ampliou sua atuação para além da esfera federal e passou a trabalhar em conjunto com governos estaduais e municipais.
Essa mudança acompanha uma constatação simples: boa parte das políticas públicas só chega ao cidadão na ponta, através dos municípios e das unidades da federação. Por isso, pensar capacidade estatal passou a exigir uma visão menos concentrada em Brasília.
A formação passou a incorporar também a cooperação federativa, aproximando diferentes realidades e experiências da administração pública brasileira.
Uma instituição que se reinventa por dentro
A mudança não ocorreu somente nos cursos e nas áreas de conhecimento. A própria estrutura interna também precisou acompanhar essa transformação. E foi para isso que, em 2023, Lincoln Moreira chegou à Enap com a missão de contribuir para uma modernização da gestão interna.
“A Escola sempre foi referência dos muros para fora, do ponto de vista de gestão de pessoas, transformação digital e inovação”, lembra o hoje diretor de Gestão Corporativa.
O desafio era levar essa mesma capacidade para dentro da própria instituição. A mudança passou por áreas como tecnologia, gestão de pessoas, contratos e sustentabilidade. É mais uma dimensão de uma instituição que precisou aplicar internamente aquilo que, há anos, ensinava e pesquisava para o restante do serviço público.
Uma escola que não quer ser espelho
A história recente também mostra que a capacidade de antecipação passou a ser uma preocupação. Durante a gestão de Diogo Costa, a Enap atravessou a pandemia da Covid-19 e precisou adaptar rapidamente sua forma de funcionamento. Cursos antes presenciais foram migrados para o ambiente remoto, e estruturas digitais que já vinham sendo desenvolvidas ganharam uma importância inesperada.
A experiência reforçou uma característica que já aparecia na trajetória da instituição: algumas mudanças precisam ser feitas antes que se saiba exatamente quando serão necessárias.
Naquele período, a Enap já buscava pensar no serviço público que ainda estava por vir. “A gente não quer que a Escola seja simplesmente um espelho do presente”, definiu Diogo Costa.
A ideia era preparar servidoras e servidores para mudanças que ainda estavam em curso — e não apenas reproduzir o modelo de administração pública já existente.
O futuro como parte da missão
É justamente nesse ponto que os 40 anos deixam de ser apenas uma retrospectiva do passado e passam a apontar o caminho para o futuro. Os problemas que o Estado precisa enfrentar hoje são diferentes dos que estavam no centro da agenda em 1986.
Mudanças climáticas, desigualdade, transformação tecnológica, inteligência artificial, envelhecimento da população e novas formas de organização do trabalho colocam desafios que não podem ser resolvidos apenas com os instrumentos tradicionais da administração.
O Estado é cada vez mais chamado a enfrentar problemas que não conseguem ser solucionados isoladamente pelo mercado ou pela sociedade. E, quando o Estado não consegue responder, a consequência não é apenas administrativa. A capacidade de entregar respostas está relacionada à própria confiança da sociedade nas instituições públicas.
Por isso, a formação do servidor precisa ir além do domínio de procedimentos. Ela envolve capacidade técnica, pensamento crítico, competências gerenciais e compreensão dos problemas que estão por trás das políticas públicas.
Quarenta anos de mudanças
Ao longo dessa trajetória, a Enap teve diferentes presidentes, projetos e prioridades. Helena Kerr, primeira mulher a presidir a instituição e a pessoa que permaneceu por mais tempo no cargo (cerca de oito anos e quatro meses), acompanhou um período de mudanças na própria estrutura de comando.
Para Helena, a alternância também contribuiu para a renovação da Escola. “Acho que a gente, depois de alguns anos, começa a não enxergar coisas novas para fazer.” A sucessão de gestões produziu mudanças de direção, mas também deixou uma característica permanente: a necessidade de adaptação.
Paulo Sérgio de Carvalho, Gleison Cardoso Rubim e Diogo Costa, entre outros dirigentes, participaram de diferentes momentos dessa construção. Em comum, a ideia de que uma Escola de Governo não pode permanecer parada enquanto o próprio Estado muda.
Uma escola diante de um estado em transformação
Betânia Lemos, atual presidente da Enap, resume a dimensão que a Escola alcançou ao longo desse processo. A instituição passou a reunir formação, pesquisa, inovação e discussão sobre os caminhos da administração pública, além de ampliar a interação com governos estaduais, municipais e instituições estrangeiras. “É um grande hub de administração pública, do pensamento da administração pública”, define Betânia.
Mas os 40 anos também colocam uma questão para além da celebração. Como continuar sendo relevante quando o Estado muda em uma velocidade cada vez maior?
A resposta não está apenas na criação de novos cursos ou na adoção de novas tecnologias.
A inteligência artificial, por exemplo, pode aumentar a capacidade de atuação do governo, mas também pode aprofundar desigualdades se for incorporada sem cuidado. Isso vale para outras transformações tecnológicas e sociais.
O desafio da Enap, portanto, não é simplesmente acompanhar cada novidade. É entender o que essas mudanças significam para o serviço público e preparar servidores para tomar decisões diante delas.
Os próximos 40 anos
Apesar de não ser possível saber hoje como será a administração pública brasileira de 2066, a própria história da Enap mostra que tentar prever o futuro exato não é tão importante quanto fortalecer capacidades estatais para lidar com futuros possíveis.
Foi assim quando a Escola ainda era uma instituição pequena e pouco consolidada; quando a formação passou a incorporar pesquisa, inovação e pós-graduação; durante a pandemia, quando a estrutura presencial precisou ser transformada em poucos dias; e é assim que a Enap atua hoje diante de problemas que ainda estão por vir.
Gomide resume essa perspectiva ao falar do futuro da instituição. “Cada vez mais a Enap atua como um hub de conhecimento e um centro de excelência em capacitação e entrega de serviços para o governo.”
A Enap chega até aqui com a importância que tem por ter se reinventado ao longo dos anos. E, diante das transformações que já estão em curso, provavelmente terá de continuar mudando constantemente.
Os próximos 40 anos ainda estão sendo escritos, mas a história deixa uma pista importante: para uma Escola criada para transformar o Estado, permanecer igual nunca foi uma opção.